202...(5)
O antes, o depois e o entretanto.
Há acontecimentos que nos obrigam a pensar, a parar durante um segundo para escutar aquilo que a vida tenta sussurrar-nos. Talvez use este espaço demasiadas vezes como um desaguar de palavras, um lugar onde despejo o que me acontece e, sobretudo, o que me dói e o que me ilumina. Uma espécie de reflexão em ciclo, sempre a acompanhar-me.
Tenho noção de que nunca me calo sobre a velocidade do tempo. E é isso que mais me espanta: a velocidade. A forma quase cruel como os anos escorrem sem barulho, até que um dia acordamos e percebemos que a vida deu uma volta de 180 graus… e que cinco anos podem pesar como vinte.
Dentro de pouco tempo estaremos em 2026, e continuo sem conseguir abarcar tudo o que mudou desde dezembro de 2020.
Nessa altura tinha 27 (tão nova, embora me sentisse antiga) e a minha vida estava prestes a ruir para depois se recompor. Não costumo falar disto abertamente, mas aqui (quase) ninguém me conhece, por isso deixo cair a armadura.
Em 2020 trabalhava num sítio onde a infelicidade já era rotina. Estava longe da área que tinha escolhido e carregava todos os dias a sensação de estar a falhar à vida. Para piorar, vivia há oito anos numa relação onde já não cabia. Uma relação que me apagou devagarinho e me habituou a esquecer quem era.
E há sempre quem fale do tal retorno de Saturno por volta desta idade. Não sei se acredito nos astros ou se sou só uma chalupa funcional, mas dizem que aos 27 tudo começa a ser posto à prova.
E, olhando para trás, talvez tenha sido isso mesmo.
No meio da incerteza da pandemia, esse tempo suspenso em que ninguém sabia quando (ou se) a normalidade voltaria: a minha relação acabou, fui despedida e soube que a minha mãe tinha um tumor.
Ela está bem, obrigada! 🤍
Sei que há histórias bem mais pesadas, mas esta foi a minha. E no meio deste rebentamento todo, a vida obrigou-me a começar do zero. Parei, respirei, chorei até ficar exausta. E mesmo assim, no meio dos destroços, reapareceu em mim uma coisa antiga: a capacidade de encher o peito de ar. Já não sentia isso há demasiado tempo.
E agora?
A verdade é que estou melhor do que alguma vez imaginei. Aprendi que o tempo é precioso e que só temos uma vida, curta para tudo o que queremos fazer, mas grande o suficiente para amarmos quem merece esse amor.
Nestes últimos cinco anos vivi de verdade. Cumpri metas, realizei sonhos, amei, ri, chorei. Mas, acima de tudo, reencontrei-me.
Lutei, desci ao fundo, voltei à superfície. Defendi o que era meu, fiz (muito) barulho quando foi preciso, incomodei algumas/muitas pessoas. Houve quem não me quisesse ver nem pintada. E está tudo certo. Porque também sei que houve quem se iluminasse comigo, quem tivesse encontrado algo bom na minha presença.
Fui claridade para uns, tempestade para outros. É assim que a vida funciona.
Resumindo: estou feliz. E não mudaria nada. Hoje, com 32 anos, sinto-me jovem (mais jovem do que aos 27) e de braços abertos para o que vier.
Há coisas que conseguimos segurar; outras pedem que nos deixemos levar pela corrente. Bons momentos, maus momentos.
E, daqui a cinco anos, espero que a vida me surpreenda.

Foi (também) graças a ti que deixei de ter medo dos 30 e aprendi a ter coragem para saltar para dentro deles de pés juntos. Obrigada por tudo! Mal posso ver o que a vida ainda te vai dar -- seja daqui a cinco, dez ou quinze anos. Dás esperança a quem está aí um bocadinho atrás ❤️